Orlando Lima
 

Entre o período de 1930 a 1950, Orlando Lima foi delegado de polícia. Segundo depoimentos de alvinopolenses, Orlando Lima ficou famoso pela sua energia no cumprimento das leis.

Ele percorria toda a cidade a cavalo, investigando, ouvindo depoimentos, processando ou mesmo defendendo as pessoas.

Segundo depoimentos de alvinopolenses, quando foi delegado de polícia foi muito útil à população. Era costume dele ir pessoalmente às fazendas para ajudar as comunidades carentes.

Uma particularidade dele como delegado de polícia, era que quando necessitava prender alguém, ele não pedia a nenhum soldado para fazer o serviço, pois preferiria ir pessoalmente prender o indivíduo.

Existem muitos “casos” e “causos” relatados pelos alvinopolenses a respeito de Orlando Lima, pois ele se tornou uma figura lendária na cidade. Muitos boatos fazem parte da imaginação popular em contrapartida aos casos com fundamentação verídica. Na maioria são casos divertidos que revelam a personalidade irreverente e ao mesmo tempo uma natureza austera.

Um dos casos é quando ele estava no auge como delegado de polícia e foi prender um homem que residia no Distrito de Fonseca (pertencente a Alvinópolis), em uma fazenda. Orlando Lima quando chegou ao local, verificou que o homem se encontrava próximo a um moinho. Então, Orlando Lima foi em direção ao homem, só que abruptamente surgiu a esposa do homem em sua frente. Nesse momento a mulher segurou na barba de Orlando não permitindo que ele prendesse seu marido.

Nesse caso evidencia uma particularidade do visual de Orlando Lima: sua longa barba. Era uma barba que chamava muito a atenção de todos. Tanto que algumas pessoas o chamavam de “Papai Noel”.

Além disso, ele gostava de cheirar rapé e o colocava sobre os bigodes.

No início da década de 40, Orlando Lima como amante do futebol, iniciou na pacata cidade de Alvinópolis um trabalho com os jovens, cujo objetivo era o de formar craques para o futuro. Em uma época onde não existia recursos e a infra-estrutura como hoje em dia, Orlando Lima plantou uma semente dentro dos jovens que a partir daí revelou grandes jogadores na região de Alvinópolis (M.G.).

Hoje em dia, no Brasil se discute muito sobre a violência, sobre a marginalização do menor abandonado, mas felizmente na pequena cidade de Alvinópolis existiu um grande homem que antes de tudo e de todos já se preocupava com o maior bem que um País pode ter: o caráter de seus cidadãos. E o esporte é fundamental na formação do caráter de um cidadão.

No começo da Década de 70 as equipes profissionais de futebol de todo o Brasil começavam um trabalho de base, tendo o objetivo de formar craques para o futuro.

Estas equipes são chamadas atualmente de “Dente de leite” (na faixa de idade dos 10 aos 13 anos), “Juvenil” (na faixa de idade de 14 a 16 anos) e “Juniores” (na faixa de 17 a 19 anos).

Mas nos idos de 1940, na pequena cidade de Alvinópolis, este trabalho já começava a florescer, sob o comando de um homem forte, enérgico, carinhoso com as crianças, carismático, uma lenda, um mito: Orlando Lima.

Segundo depoimentos de alvinopolenses e, em especial de “José Silvério de Souza Carvalho” (de apelido “Vidrilho”), Orlando Lima trabalhava com duas equipes: o “Pintinho” quadros A e B e o “Lambari”, quadros A e B.


José Silvério de Souza Carvalho (“VIDRILHO”)

No total a média girava em torno de 60 garotos. Os garotos entre 08 a 10 anos formavam o “Pintinho” enquanto que os garotos entre 11 a 15 anos formavam o “Lambari”, times de futebol.


Time “Lambari”de Orlando Lima
 

Os craques, após completarem 15 anos, eram transferidos para o “Juvenil” do “Alvinopolense Futebol Clube”, sob o comando de outro treinador.

De 1940 a 1961 todo craque surgido na cidade de Alvinópolis, com certeza foi formado no “Lambari” de Orlando Lima.

À seguir uma fotografia tirada no dia 30 de julho de 1955, com o quadro Titular do “Lambari”de Orlando Lima.


Da esq. para dir. em cima: “Pedrinho”, “Adair”, “Fernando”, “Nem” e “Fabinho”.
Da mesma ordem em baixo: “Delcio”, “Rafael”, “Aurélio”, “Geraldo”, “Bororó” e “Paulinho”

O “Lambari” e o “Pintinho” sempre tiveram o apoio da Diretoria do “Alvinopolense Futebol Clube”, inclusive os treinos às segundas-feiras e sábados e alguns jogos amistosos eram realizados em seu campo.

O Sr. José Silvério de Souza Carvalho com emoção relata a seguir a atuação de Orlando Lima junto ao “Lambari”:

“O Sr. Orlando Lima mantinha sob a sua guarda todo material esportivo utilizado pelos craques e muitas vezes gastava dinheiro de seu próprio bolso para melhorias de material, aquisição de material, etc. Sempre viajávamos pelas cidades vizinhas, de caminhão, para jogos amistosos. Uma das principais características do Sr. Orlando, era o de colocar apelidos na garotada, que carregamos nas costas até os dias de hoje, até com uma certa satisfação. No meu caso, sonhava em jogar no Lambari e aos 10 anos de idade meu pai conversou com o Sr. Orlando e eu estava incorporado no time de futebol em 1953. Uma felicidade sem tamanho tomou conta de mim e no sábado seguinte lá estava eu, um garoto raquítico, baixinho, olhos arregalados, fixados no Sr. Orlando, que reuniu a garotada no centro do gramado do Clube Alvinopolense. Então ele olhou para mim, com cara de poucos amigos, passando a mão nas suas longas barbas. Eu tremi de medo e então ele me chamou:

- hei você aí, vem aqui...

O Sr. Orlando olhou para mim e para os demais garotos que estavam rindo. Os garotos davam gargalhadas enquanto eu fiquei todo vermelho de vergonha. Então, o Sr. Orlando disse em voz alta:

- VIDRILHO...

Nesse momento eu estava batizado.

Depois ele me explicou que “Vidrilho” era um minúsculo pássaro e como eu era o menor garoto do grupo, ele resolveu colocar este apelido...”.

O depoimento acima relatado pelo Sr. José Silvério exemplifica a singular personalidade de Orlando Lima.

Dentro de sua especialidade em criar apelidos, neste trabalho são citados alguns que foram colocados por ele aos cidadãos alvinopolenses, que são:

1) Redondo; 2) Didinho; 3) Tizinho; 4) Buzão; 5) Zezé; 6) Taxinha; 7) Baiana; 8) Lirinha; 9) Dada; 10) Saquitumba; 11) Sabiá; 12) Moba; 13) Bacuri; 14) Zé Grilo; 15) Geraldo Garrinchinha; 16) João Peida-fogo; 17) Dico Lavanca; 18) Caldeirão; 19) Catatau; 20) Gasolina; 21) Chambeta; 22) Mão na boca; 23) Nôno barata; 24) Toninho miau; 25) Binguinha; 26) Bingota; 27) Picareta; 28) Geraldo chulapa; 29) Vicente Maria Preta; 30) Carrapicho; 31) Raimundo canavial; 32) Lalada; 33) Vaca braba; 34) Vaquinha; 35) Azulão; 36) Tiziu; 37) Geléia Preta; 38) Zé cabrito; 39) Bené fumaça; 40) Anzol; 41) Anzolinho; 42) Ratinho; 43) Tito ossada; 44) Paulinho rebeca; 45) Galinho; 46) Leitoa; 47) Bené classe; 48) Chico sem tampa; 49) Birião; 50) Bororó; 51) Doca; 52) Vidrilho; 53) Lataria; 54) Grude; 55) Cocota; 56) Coalhada; 57) Bené beiçola; 58) Anemia; 59) Zé três; 60) Limonada; 61) Cabacinha; 62) Baianinho; 63) Zego; 64) Zé lusão; 65) Tubarão; 66) Rebojo; 67) Carquejo; 68) Polac; 69) Lilito Massa; 70) Nuado; 71) Carlos gafanhoto; 72) Caroço; 73) Zé da Capelinha; 74) Sem elas; 75) Com elas; 76) Chico de Caruncha; 77) Pity; 78) Quinquita; 79) Mucolo; 80) Totó; 81) Tatim; 82) Dinho; 83) Dinho Muchiba; 84) Baratinha; 85)Bodão; 86)Pelanca.

Esses apelidos sempre eram envoltos de alguma história, sempre dados por causa de uma característica física, comportamental ou sentimental.

Os apelidos de Orlando Lima tinham mais importância na cidade do que o próprio nome verdadeiro do cidadão. Um apelido colocado por outra pessoa não tinha tanta evidência como aquele colocado por Orlando Lima. Existe um caso que até nos dias atuais conta-se na cidade a respeito de um enterro.

Um cidadão chamado Sebastião Ferreira era conhecido como “Tazinho”. Mas esse apelido não foi colocado por Orlando Lima. Até que esse cidadão faleceu e no dia de seu enterro compareceu durante o cortejo fúnebre um senhor chamado José de Oliveira. Como o caixão se encontrava fechado, o Sr. José de Oliveira ficou curioso para saber quem era o falecido. Até que ele resolveu perguntar para as pessoas e responderam para ele que o falecido era o “Tazinho”. Quando começaram a carregar o caixão o Sr. José de Oliveira foi convidado a ajudar. Durante o percurso até a sepultura o Sr. José de Oliveira encontrava-se silencioso, mas ainda curioso, pois ainda não conseguia identificar o falecido. Até que no momento final ele perguntou novamente quem era o tal “Tazinho”.

Foi neste momento que lhe revelaram que o falecido era o “Sem ela” (apelido dado por Orlando significando “sem nádegas”). Nesse instante o Sr. José de Oliveira não conseguia mais segurar o caixão por causa de seu duradouro pranto. Com este caso evidencia a repercussão que causava os apelidos inventados por Orlando Lima.

Um outro caso deve ser aqui mencionado ocorrido na cidade por volta de 1937. Segundo depoimentos, Orlando Lima esteve envolvido em um incidente antes do surgimento de um clube na cidade chamado atualmente de “Industrial Sport Club”. Conta-se que um grupo de operários da fábrica de tecidos (Companhia Fabril Mascarenhas) da cidade de Alvinópolis eram filiados ao Partido Integralista e jogavam futebol, tendo como comandante Orlando Lima. Então, fundaram um clube intitulado "Anauê Esporte Clube". Para ser a sede do clube, alugaram um casarão na "Baixada", ao lado do atualmente chamado "Bar do Dolfo". Mais tarde este casarão veio a ser a fábrica de manteiga "Grijó", que tinha sua matriz na cidade de Dom Silvério (MG). Na busca de um espaço para praticar o futebol, procuraram os diretores da "Fábrica Fabril Mascarenhas", que prontamente cederam um terreno para o grupo treinar. Este terreno é o histórico "Estádio Paulo Mascarenhas", campo do atual "Industrial Sport Club". Naquela época, um fato ocorreu com o time do "Anauê Esporte Clube". Os jogadores ficaram conhecidos na cidade de "Periquitos" do treinador Orlando Lima, porque usavam um uniforme totalmente da cor verde. Então, a torcida rival do time do "Alvinopolense Futebol Clube" realizava gozações e brincadeiras devido a isso. Mas os jogadores do time do "Anauê Esporte Clube" não gostavam do apelido e, por causa disso, o time teve uma pequena duração. Por volta de 1938 os jogadores do time resolveram mudar o nome do clube e a cor do uniforme. Fundaram o atual "Industrial Sport Club", que possue a camisa azul e branca. Essa é mais uma das histórias na cidade onde Orlando Lima esteve envolvido. Após a dissolução do "Anauê Esporte Clube", Orlando Lima foi convidado para assumir as categorias de base do "Alvinopolense Futebol Clube, formando o famoso time "Lambarí", onde revelou os maiores craques da história do futebol da cidade.

Uma pequena lembrança dos ex-jogadores do Lambari de Orlando Lima é que nos treinos quando iniciava o entardecer, ele gritava a palavra “Borô”, todos os jogadores sabiam que era a hora de partir.

Orlando Lima organizava os torneios de futebol na região da cidade de Alvinópolis. Tanto os treinos como os torneios eram envoltos de muita alegria e festa para os jovens.

Dentre os torneios vale mencionar os ocorridos na cidade de São Domingos do Prata (MG). O time “Lambari”, de Alvinópolis, disputava contra o time “Guarani” de São Domingos do Prata (M.G.). Veja abaixo duas fotos de torneios em S. Domingos do Prata (MG)

Orlando Lima sempre conduzia os jovens para disputar os jogos nas cidades.

Os melhores jogadores de futebol que saíram da cidade de Alvinópolis foram formados no time “Lambari”. Dentre eles, citam-se: “Didinho”, Rafael Cotta, Fábio (de Juca Nanato), Romeno (Domenico de José Rodrigues), Romualdo de Oliveira, Ari (de Caetanim), etc.

Orlando Lima manteve o trabalho do “Lambari” durante anos, sem remuneração, por puro idealismo e por gostar de trabalhar com jovens.

Em 1961 lamentavelmente findou o “Lambari” de Orlando Lima, deixando sua marca registrada, revelando craques de gabarito para o Alvinopolense Futebol Clube.


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